domingo, 19 de janeiro de 2014

OS DESCENDENTES


George Clooney chegou a terceira idade. O astro de Hollywood deixa qualquer traço do galã juvenil que o acompanhou em sua carreira e, definitivamente, aceita o que o tempo reserva a todos nós, a velhice. E isso é mostrado com uma sutileza fenomenal em seu novo filme, OS DESCENDENTES, que concorre, entre outros, a melhor filme e melhor ator no famigerado Oscar 2012. E com méritos diga-se de passagem. Clooney é Matt King, um advogado que, possui, ao lado de seus vários primos, alguns hectares de terra no paraíso havaiano. No meio de um acordo milionário, sua esposa sofre um acidente de barco e entra em um coma irreversível. Sem saber como lidar com a situação de criar uma filha da qual nunca foi presente, Matt pede ajuda a sua segunda filha, a excepcional Shaillene Woodley (guardem esse nome), que interpreta Alex, uma garota forte e meio bad girl mas que ao longo da produção se torna a melhor companheira para o seu pai. Contando com interpretações primorosas, OS DESCENDENTES também prima pela sua história triste e melancólica, porém fiel e interessante, e a identificação com os percalços do personagem de Clooney é imediata. Mesmo sendo um pouco longo, quase duas horas de produção, a história se desenrola metodicamente, sem pressa, fazendo com o que o espectador entenda a difícil missão de Matt, principalmente depois da descoberta de um segredo terrível relacionado a sua esposa. A reação de Matt acerca desse segredo é diferente do que se supunha, já que a maioria das pessoas teriam uma reação diferente e, normalmente, violenta. Os coadjuvantes também dão o seu recado, com destaques para o experiente Robert Foster, o Salsicha Matthew Lillard (impressionante a evolução de suas interpretações) e, do sempre magnifico Beau Bridges, irmão de Jeff que aqui interpreta um dos primos, talvez o mais ambicioso, de Clooney. E se a cena da despedida de Matt com sua esposa é, absolutamente, emocionante (percebam a lágrima escorrendo sem nenhum esforço pelo rosto de Clooney), o adeus da filha mais nova Scottie (Amara Miller) é de despedaçar o  mais gelado coração. Mas o filme pertence realmente a Clooney em sua melhor interpretação no cinema. Se não tivessemos Jean Dujardin concorrendo ao careca dourado pelo, também belo O ARTISTA, Clooney com certeza absoluta levaria a estatueta. O jeito é esperar até o dia 26 de fevereiro para a confirmação do vencedor. Até lá, não espera mais e corra para o cinema mais próximo para conferir esse belo trabalho do diretor Alexander Payne, que depois de SIDEWAYS e O LEITOR, acerta novamente e realiza uma belíssima produção !! 

NOTA 8 !!

ANTES DA MEIA NOITE


Em 1995 um romance despretensioso e simpático acabou por conquistar público e crítica se tornando uma espécie de cult entre os espectadores. Era ''Antes Do Amanhecer'' estrelado por Ethan Hawke e a francesinha Julie Delpy. O conceito era simples,  ''um homem e uma mulher apaixonam-se e passeiam pela cidade, discursando sobre amor, sexo, trabalho...'' !! A grande sacada eram, justamente, os diálogos espertos e inteligentes que reuniam até aspirações filosóficas. Nessa primeira parte eles se encontram, passam um dia juntos passeando pela, maravilhosa, cidade de Viena e a pergunta que fica é “devemos nos encontrar novamente, ou guardar essa noite única nas nossas memórias?'' Antes Do Pôr Do Sol de 2004 trocava o romantismo por uma abordagem neurótica, psicanalítica: os dois personagens não estavam felizes com suas vidas, e refletiam sobre o papel do sexo nessas frustrações. Ele acabou se tornando um escritor e ela trabalha para uma organização de proteção ao meio-ambiente. E mais uma vez a produção deixava um gostinho de quero mais. E esse quero mais chegou com o novo ''Antes Da Meia Noite''  que traz os pombinhos, casados e, aparentemente felizes. Pais de duas lindas garotinhas, eles agoram se encontram na Grécia que pode soar como uma representação do desgastado relacionamento deles já que, podemos constatar, as famosas paisagens de ruínas do país. Os diálogos continuam maravilhosos e inteligentes, e a atuação de Julie Delpy é de encher os olhos. Por fim, Antes da Meia-Noite deve surpreender tanto os admiradores da franquia quanto os espectadores acostumados aos filmes românticos convencionais. Cruel, franco e sem concessões, esse projeto esteticamente simples ousa levantar a bandeira de um amor realista, possível, do tipo que se transforma ao longo dos anos, e que também pode – como um organismo vivo qualquer – definhar e morrer. Ainda assim a nossa torcida é que eles acabem por se entender pois teremos mais chances de um novo, e inteligente, ''Antes ...'' para apreciar. 

NOTA 9 !!

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO


Em um determinado momento de ''12 Anos De Escravidão'' o personagem de Chiwetel Ejiofor, Solomon Northup, se desespera ao presenciar a fúria de seu ''Mestre'' Edwin Epps (interpretado por Michael Fassbender), contra a escrava Patsey (Lupita Nyong'o). Ele a chibateia impiedosamente e Solomon grita; ''Você é o demônio, mais cedo ou mais tarde, em algum lugar no curso da eterna justiça você irá responder por seus pecados''. Essa frase praticamente define um dos personagens mais terríveis do cinema dos últimos anos. Baseado em uma história real, o filme acompanha um cavalheiro, nortista negro, livre e letrado, nos Estados Unidos de 1841, alguns anos antes da abolição oficial da escravatura. Ele é sequestrado depois de ser enganado por dois sujeitos que prometiam uma oferta de trabalho. Aprisionado Solomon é levado ao sul escravagista e assim começa os 12 anos de sofrimento do personagem. Primeiramente é comprado por um fazendeiro chamado William Ford (Benedict Cumberbatch, o vilão de ''Star Trek - Além Da Escuridão''). Não demora muito e Ford o ''repassa'' então a um novo fazendeiro, o, já citado, Edwin Epps, em uma interpretação aburdamente sobrenatural de Michael Fassbender (o Magneto de ''X Men - Primeira Classe). Surtado e maquiavélico Epps opera várias maneiras de intimidação e violência contras seus escravos, especialmente em Patsey (Lupita Nyong'o, guardem esse nome). O diretor Steve McQueen conduz a trama com maestria e, é minuncioso, principalmente na retratação de época. A, já citada, cena das chibatadas em Patsey poderá causar um incomôdo no espectador mais sensível, mas é uma cena poderosa que reflete o sofrimento dessas pessoas, e que, lamentavelmente quase 200 anos depois, segue tão atual. No final, ''12 Anos De Escravidão'' é o primeiro grande filme de 2014 e que, provavelmente, arrebatará vários Oscars. 

NOTA 9 !!

RUSH - NO LIMITE DA EMOÇÃO


Filmes relacionados ao automobilismo normalmente se mostram apenas aventuras escapistas e divertidas. ''Dias de Trovão'', ''Speed Racer'', e, hum, ''Alta Velocidade'' (aquele mesmo do Stallone) são alguns exemplos disso. Mas eis que surge ''Rush - No Limite Da Emoção'' e, temos aqui sim, uma obra excepcional e fantástica e ainda por cima baseada em fatos reais. A história gira em torno da, intrigante, rivalidade entre dois dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, Niki Lauda e James Hunt. Com personalidades totalmente opostas, Lauda e Hunt disputaram até a última volta a temporada de 1976, que, pra muitos especialistas no assunto (inclusive o comentarista Reginaldo Leme) foi a mais bela e fascinante de toda a história da categoria. A primeira hora de ''Rush'' busca mostrar as características de cada piloto. Niki Lauda (interpretado com absoluta maestria por Daniel Bruhl) era metódico e dedicado. Não media esforços em busca da total perfeição do seu carro, mesmo que pra isso tivesse que, praticamente, ''escravizar'' seus mecânicos. Já James Hunt (intepretado também com muita qualidadede por Chris Hemsworth, ele mesmo, o Thor) era fanfarrão e baladeiro. Boa pinta fazia o tipo ''Don Juan'', estando, quase sempre, acompanhado por garotas diferentes a cada corrida. A única coisa em comum que os unia era o gosto pela velocidade e, principalmente, por ser o melhor na pista. Lauda e Hunt eram dois talentos no volante que, até pelas inúmeras diferenças que possuíam, bateram de frente desde que se conheceram. Depois do gravíssimo acidente que quase matou Lauda, Hunt, que estava atrás na classificação do campeonato, aproveitou para se aproximar do rival, até a última corrida quando apenas três pontos o separaram. E o clímax, é de uma emoção absolutamente genuína que, fará, o espectador, mesmo aquele que não liga tanto para o esporte (principalmente depois da morte do mito, Ayrton Senna), se emocionar, e refletir quais as motivações para viver. Lauda e Hunt sabiam. 

NOTA 8.5 !!